Em outubro de 2026, a inteligência artificial consolidou presença no cenário eleitoral brasileiro por meio do monitoramento de conteúdos sintéticos, de estudos acadêmicos sobre respostas de ferramentas digitais e de simulações com eleitores virtuais. O avanço tecnológico também levou a Justiça Eleitoral a fixar restrições e fez com que candidatos à Presidência incorporassem o tema em seus planos de governo.
Monitoramento de conteúdos sintéticos e regras do TSE
O Observatório IA nas Eleições, coordenado pelas entidades Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, registrou 413 casos de inteligência artificial em publicações políticas brasileiras entre 1º de janeiro e 15 de agosto de 2026. O montante superou os 43 registros computados entre julho e dezembro de 2025. Das ocorrências de 2026, 336 foram classificadas como deepfakes, o equivalente a mais de 81% do total mapeado.
Do total de publicações analisadas, 145 partiram diretamente de partidos ou políticos, e cerca de 63% não exibiam aviso de uso de IA. A sátira respondeu por cerca de 60% dos conteúdos, enquanto cerca de 40% foram classificados como desinformação. O ataque ou crítica contra adversários políticos motivou 64,5% das postagens, e três plataformas concentraram 88,4% dos registros: Instagram, TikTok e X.
Diante desse quadro, o Tribunal Superior Eleitoral assinou parceria com a ElevenLabs em agosto de 2026 para coibir a clonagem não autorizada de voz de candidatos e autoridades. Em setembro, a corte fixou critérios baseados em realismo e propaganda para caracterizar deepfakes. A partir de 1º de outubro de 2026, entrou em vigor a proibição de publicação de conteúdos sintéticos de candidatos nas 72 horas anteriores ao pleito até 24 horas após o fim da votação.
Matéria completa: Observatório registra 413 casos de uso de IA na política brasileira em 2026
Precedência de nomes em respostas de sistemas de IA
Pesquisa conduzida pela professora Lilian Carvalho, da FGV/EAESP, analisou 2.186 respostas geradas por sete ferramentas: ChatGPT, Gemini, Grok, Perplexity, Microsoft Copilot, Google AI Mode e Google AI Overview. A coleta ocorreu de 7 a 27 de setembro de 2026, com resultados divulgados em 1º de outubro. O levantamento mediu a precedência textual entre concorrentes à Presidência da República em 2026.
Em consultas abertas sem indicação de nomes, Lula foi citado em 81% das respostas e Flávio Bolsonaro em 80,4%. Ronaldo Caiado apareceu em 54,9%, Romeu Zema em 49,9%, Augusto Cury em 49,8% e Renan Santos em 47,4%. Quando Lula e Flávio foram citados em conjunto, o petista apareceu antes em 623 de 631 ocasiões (98,7%). Em perguntas focadas em intenção de voto com ambos os nomes, Lula antecedeu Flávio em todas as 121 respostas.
As ferramentas avaliadas recusaram recomendações diretas de voto aos usuários, cumprindo normas do TSE. Houve variações no comportamento dos modelos: ao serem questionados sobre em quem votar em 2026, o Grok citou Lula e Flávio juntos em todas as 21 consultas, o ChatGPT fez isso em uma, e Gemini e Google AI Mode não os citaram simultaneamente. Em quatro de 21 consultas no Grok sobre valores conservadores, Flávio foi apontado como o nome mais alinhado, sem equivalente único nas buscas sobre progressismo.
Matéria completa: Estudo da FGV mostra precedência de Lula sobre Flávio Bolsonaro em respostas de IA para 2026
Simulação com agentes autônomos na eleição paulista
A FIA Business School e a Levius Consulting criaram um experimento com 10 mil agentes de IA baseados no modelo open source Qwen de 14 bilhões de parâmetros. Divulgada em 2 de outubro de 2026, a simulação retratou a eleição para o Governo de São Paulo com perfis construídos a partir de microdados do TSE, contemplando gênero, faixa etária, escolaridade, estado civil, raça e localização.
A campanha virtual percorreu 11 rodadas e somou 112.567 interações, além de 6.015 justificativas de voto, com 7.817 agentes completando a etapa de votação em uma das execuções. Os agentes acumularam experiências ao receber notícias, propagandas e pesquisas, alterando sua memória e comportamento. Candidatos virtuais também puderam ajustar táticas durante o processo.
Os responsáveis destacaram que a metodologia não consiste em pesquisa de intenção de voto nem em previsão eleitoral, pois não houve comparação com eleitores reais em 2026, embora a técnica tenha passado por testes retrospectivos com dados de 2022. As instituições apontam utilidade da modelagem para formular políticas públicas e estratégias corporativas.
Matéria completa: FIA e Levius criam simulação com 10 mil agentes de IA sobre eleição ao governo de SP
Propostas para IA e data centers na disputa presidencial
Os candidatos Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) apresentaram em 2 de outubro de 2026 diretrizes para infraestrutura digital e regulação em seus programas de governo. As propostas surgiram após a sanção presidencial do Redata em 1º de setembro de 2026, que desonerou equipamentos para data centers, e em meio ao déficit de US$ 8 bilhões na balança comercial de serviços computacionais em 2025.
Caiado propôs uma lei baseada em risco e danos concretos com supervisão setorial, além da criação de uma autoridade nacional de cibersegurança independente e de um Programa Nacional de Indústria 4.0 e IA. Sua proposta prevê regime tributário condicionado ao uso de energia renovável, eficiência hídrica e reserva de computação para pesquisa. Já Zema defendeu evitar regulação precoce da tecnologia, sugerindo regras pontuais apenas diante de danos comprovados e propondo IA para organizar filas do SUS.
“Ainda não chegamos na quantidade de data centers e de problemas que esses outros países já têm. Temos que olhar para os problemas que estão acontecendo nos outros países e nos precaver para que o mesmo não aconteça aqui”Daniel Cordeiro6
Matéria completa: Caiado e Zema incluem inteligência artificial e data centers em planos presidenciais
Em números
- 413casos de IA na política mapeados pelo Observatório até agosto de 2026
4 - 336conteúdos classificados como deepfakes pelo Observatório
4 - 145publicações com IA feitas diretamente por políticos ou partidos
4 - 2.186respostas de ferramentas de IA avaliadas pela FGV
3 1 - 98,7%taxa em que Lula antecedeu Flávio Bolsonaro quando citados juntos em estudo da FGV
3 1 - 10 milagentes de IA na simulação eleitoral da FIA e Levius Consulting
2 - 112.567interações registradas na simulação virtual do governo paulista
2 - US$ 8 bilhõesdéficit comercial brasileiro em serviços de computação em 2025
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O que se sabe
- O Observatório IA nas Eleições contabilizou 413 casos de uso de IA na política em 2026, sendo mais de 81% caracterizados como deepfakes.
4 - O TSE fixou regras que proíbem materiais sintéticos de candidatos entre 72 horas antes e 24 horas após o encerramento da votação.
4 - Estudo da FGV apontou que ferramentas de IA mencionaram Lula antes de Flávio Bolsonaro em 98,7% das respostas conjuntas, mas sem indicar voto diretamente.
3 1 - FIA e Levius construíram uma simulação com 10 mil agentes virtuais baseados no modelo Qwen para observar reações de campanha em São Paulo.
2 - Os presidenciáveis Ronaldo Caiado e Romeu Zema incluíram propostas regulatórias e atração de data centers em seus planos de governo.
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